288 ♥
Reblog
"Você chega assim sorrindo como se fosse a primavera, eu morrendo e de que modo sutil, me derramou na camisa todas as flores de abril. Quem lhe disse que eu era riso sempre e nunca pranto? Como se fosse a primavera, não sou tanto. No entanto, que espiritual, você me dar uma rosa, de seu rosal principal." — Chico Buarque.
512 ♥
Reblog "Moça, olha só o que eu te escrevi:
É preciso força pra sonhar e perceber
que a estrada vai além do que se vê!
Sei que a tua solidão me dói
e que é difícil ser feliz…
Mas, do que somos todos nós?
Você supõe o céu.
Sei que o vento que entortou a flor
passou também por nosso lar
e foi você quem desviou
com golpes de pincel.
Eu sei, é o amor que ninguém mais vê." — (Além do que se vê, Los Hermanos)
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É preciso força pra sonhar e perceber
que a estrada vai além do que se vê!
Sei que a tua solidão me dói
e que é difícil ser feliz…
Mas, do que somos todos nós?
Você supõe o céu.
Sei que o vento que entortou a flor
passou também por nosso lar
e foi você quem desviou
com golpes de pincel.
Eu sei, é o amor que ninguém mais vê." — (Além do que se vê, Los Hermanos)
23 ♥
Reblog "Preciso dizer que não sei dizer mais nada. Tua poesia apoderou-se de todos os meus sentidos e emudeceu-me a boca, não há o que fazer, a não ser com os olhos falar-te o que precisas ouvir. Leia-me. Desfolhas o teu livro, eu." — Luíza Miranda.
Reblog "Preciso dizer que não sei dizer mais nada. Tua poesia apoderou-se de todos os meus sentidos e emudeceu-me a boca, não há o que fazer, a não ser com os olhos falar-te o que precisas ouvir. Leia-me. Desfolhas o teu livro, eu." — Luíza Miranda.
39 ♥
Reblog "Matilde tampouco usava os vestidos de manga comprida que mamãe lhe deu, o que era injusto com os vestidos. Até lhe sugeri um cinzento de gola alta, quando saímos para dançar, porque a noite estava fresca. Mas ela teimou com o vestido de alças, cor de laranja. E quando lhe abri a porta para entrar no carro, olhei seus ombros nus e achei que nunca a tinha visto tão bonita na vida. Também vi um pedaço de suas coxas bronzeadas, quando o porteiro do Assirius abriu a porta para ela saltar. Dubosc nos esperava à entrada do salão, e curvou-se muito para beijar sua mão, Jean-Jacques, enchanté. Nossa mesa ficava perto da orquestra, e com sua voz de trombone ele ordenou batida de limão ao garçom. Eram as únicas palavras dele em português, batida de limão, e lhe pedi que as repetisse, porque Matilde achou engraçado o sotaque. Dubosc pôs-se a elogiar nossas fauna, flora e cachoeiras, mas não sei se Matilde o compreendia. Embora o olhasse muito aplicada, sentada na ponta da cadeira, percebi que ela dançava o foxtrote da cintura para baixo. E tamborilava na mesa no compasso do charleston, enquanto eu lhe descrevia em alto e bom som as falésias de ocre do Russilhão, terra natal do nosso Dubosc. Nisso a orquestra atacou o tema que tantas vezes ouvi ao longe, na vitrola de Matilde. Le maxixe!, exclamou o francês, é magnífico o ritmo dos negros!, e nos pediu que dançássemos para ele ver. Mas eu só sabia dançar a valsa, e respondi que ele me honraria tirando minha mulher. No meio do salão os dois se abraçaram e assim permaneceram, a se encarar. Súbito ele a girou em meia-volta, depois recuou o pé esquerdo, enquanto com o direito Matilde dava um longo passo adiante, e os dois estacaram mais um tempo, ela arqueada sobre o corpo dele. Era uma coreografia precisa, e me admirou que minha mulher conhecesse aqueles passos. O casal se entendia à perfeição, mas logo distingui o que nele foi ensinado do que era nela natural. O francês, muito alto, era um boneco de varas, jogando com uma boneca de pano. Talvez pelo contraste, ela brilhava entre dezenas de dançarinos, e notei que todo o cabaré se extasiava com a sua exibição. Todavia, olhando bem, eram pessoas vestidas, ornadas, pintadas com deselegância, e foi me parecendo que também em Matilde, em seus movimentos de ombros e quadris, havia excesso. A orquestra não dava pausa, a música era repetitiva, a dança se revelou vulgar, pela primeira vez julguei meio vulgar a mulher com quem eu tinha me casado. Depois de meia hora eles voltaram se abanando, e escorria suor pelo colo de Matilde decote abaixo. Bravo, eu gritei, bravo, e ainda os estimulei a dançar o próximo tango, mas Dubosc disse que já era tarde, e que eu tinha um ar fatigado. Fatigado estava ele, que pediu carona até seu hotel a duas quadras, e se recolheu sem se despedir direito, nem sequer beijou a mão de Matilde. Talvez tenha concluído, ao longo da noitada, que ela era mulher para dançar maxixe, e não de beijar a mão. E no caminho de casa Matilde pegou a assobiar, assobiava a melodia do tal maxixe. Parecia má-criação, de uma feita assobiou num jantar da minha mãe, que se retirou da mesa. Mas agora deve ter percebido o quanto me exasperava, porque se interrompeu para perguntar o que havia comigo. Nada, azia, eu disse, e não era mentira, meu estômago não suportava cachaça, que agora era moda servir até em locais requintados. Ela saiu do carro antes que eu lhe abrisse a porta, e mal entramos em casa foi para a cozinha, tinha mania de ir para a cozinha. Volta e meia levava a criança à cozinha, dava conversa às empregadas, era vezeira em almoçar ali com a babá. Então me vi tomado de um sentimento obscuro, entre a vergonha e a raiva de gostar de uma mulher que vive na cozinha. Eu seguia Matilde, que falava sozinha, que meio cantarolando perguntava pelo chá de boldo, e de repente não sei o que me deu, agarrei-a com violência pelas costas. Joguei-a contra a parede e ela não entendeu, começou a emitir gemidos nasais, o rosto achatado nos ladrilhos. Prendi seus punhos na parede, ela se debatia, mas eu a controlava com meus joelhos atrás dos seus. E com meu tronco eu a apertava, eu a espremia a valer, eu quase a esmagava na parede, até que Matilde disse, eu vou, Eulálio, e seu corpo tremeu inteiro, levando o meu a tremer junto." — Chico Buarque, Leite Derramado.
Reblog "Matilde tampouco usava os vestidos de manga comprida que mamãe lhe deu, o que era injusto com os vestidos. Até lhe sugeri um cinzento de gola alta, quando saímos para dançar, porque a noite estava fresca. Mas ela teimou com o vestido de alças, cor de laranja. E quando lhe abri a porta para entrar no carro, olhei seus ombros nus e achei que nunca a tinha visto tão bonita na vida. Também vi um pedaço de suas coxas bronzeadas, quando o porteiro do Assirius abriu a porta para ela saltar. Dubosc nos esperava à entrada do salão, e curvou-se muito para beijar sua mão, Jean-Jacques, enchanté. Nossa mesa ficava perto da orquestra, e com sua voz de trombone ele ordenou batida de limão ao garçom. Eram as únicas palavras dele em português, batida de limão, e lhe pedi que as repetisse, porque Matilde achou engraçado o sotaque. Dubosc pôs-se a elogiar nossas fauna, flora e cachoeiras, mas não sei se Matilde o compreendia. Embora o olhasse muito aplicada, sentada na ponta da cadeira, percebi que ela dançava o foxtrote da cintura para baixo. E tamborilava na mesa no compasso do charleston, enquanto eu lhe descrevia em alto e bom som as falésias de ocre do Russilhão, terra natal do nosso Dubosc. Nisso a orquestra atacou o tema que tantas vezes ouvi ao longe, na vitrola de Matilde. Le maxixe!, exclamou o francês, é magnífico o ritmo dos negros!, e nos pediu que dançássemos para ele ver. Mas eu só sabia dançar a valsa, e respondi que ele me honraria tirando minha mulher. No meio do salão os dois se abraçaram e assim permaneceram, a se encarar. Súbito ele a girou em meia-volta, depois recuou o pé esquerdo, enquanto com o direito Matilde dava um longo passo adiante, e os dois estacaram mais um tempo, ela arqueada sobre o corpo dele. Era uma coreografia precisa, e me admirou que minha mulher conhecesse aqueles passos. O casal se entendia à perfeição, mas logo distingui o que nele foi ensinado do que era nela natural. O francês, muito alto, era um boneco de varas, jogando com uma boneca de pano. Talvez pelo contraste, ela brilhava entre dezenas de dançarinos, e notei que todo o cabaré se extasiava com a sua exibição. Todavia, olhando bem, eram pessoas vestidas, ornadas, pintadas com deselegância, e foi me parecendo que também em Matilde, em seus movimentos de ombros e quadris, havia excesso. A orquestra não dava pausa, a música era repetitiva, a dança se revelou vulgar, pela primeira vez julguei meio vulgar a mulher com quem eu tinha me casado. Depois de meia hora eles voltaram se abanando, e escorria suor pelo colo de Matilde decote abaixo. Bravo, eu gritei, bravo, e ainda os estimulei a dançar o próximo tango, mas Dubosc disse que já era tarde, e que eu tinha um ar fatigado. Fatigado estava ele, que pediu carona até seu hotel a duas quadras, e se recolheu sem se despedir direito, nem sequer beijou a mão de Matilde. Talvez tenha concluído, ao longo da noitada, que ela era mulher para dançar maxixe, e não de beijar a mão. E no caminho de casa Matilde pegou a assobiar, assobiava a melodia do tal maxixe. Parecia má-criação, de uma feita assobiou num jantar da minha mãe, que se retirou da mesa. Mas agora deve ter percebido o quanto me exasperava, porque se interrompeu para perguntar o que havia comigo. Nada, azia, eu disse, e não era mentira, meu estômago não suportava cachaça, que agora era moda servir até em locais requintados. Ela saiu do carro antes que eu lhe abrisse a porta, e mal entramos em casa foi para a cozinha, tinha mania de ir para a cozinha. Volta e meia levava a criança à cozinha, dava conversa às empregadas, era vezeira em almoçar ali com a babá. Então me vi tomado de um sentimento obscuro, entre a vergonha e a raiva de gostar de uma mulher que vive na cozinha. Eu seguia Matilde, que falava sozinha, que meio cantarolando perguntava pelo chá de boldo, e de repente não sei o que me deu, agarrei-a com violência pelas costas. Joguei-a contra a parede e ela não entendeu, começou a emitir gemidos nasais, o rosto achatado nos ladrilhos. Prendi seus punhos na parede, ela se debatia, mas eu a controlava com meus joelhos atrás dos seus. E com meu tronco eu a apertava, eu a espremia a valer, eu quase a esmagava na parede, até que Matilde disse, eu vou, Eulálio, e seu corpo tremeu inteiro, levando o meu a tremer junto." — Chico Buarque, Leite Derramado.




